O dragão e o santo

Et proiectus est draco ille magnus… (Apoc. 12, 9)

Vou dar uma volta por aí e semioculta
atrás duma enorme trepadeira silvestre
que ninguém sabe quem plantou
topo à esquerda com a estátua:

São Jorge e o dragão subjugado
presos num bloco de granito.

Fico olhando pro santo e torcendo
pro dragão, São Jorge Cavaleiro
morde o beiço enfurecido e arma
o braço, lança em punho. O cavalo
parece dos três o mais assustado,
os olhos de gude querem
saltar das órbitas pra não ver
o duvidoso desfecho do golpe.

A lança do santo já bem salpicada
de bosta de pardal e de algum pombo
enferruja no ar poluído da cidade.

O dragão bem fresco língua de fora
parece estar rindo, sabendo que é
estátua, e mesmo sob os pés do santo,
penosa imagem de sujeição e derrota
bicho dragão de sete vidas famoso
pela velha rivalidade apocalíptica,
sabe que no fundo nem São Jorge
pode com ele.

Pode que o crime não compense
mas no fim o bicho sai ganhando!

© do livro “Poemas de cristal”, Heidelberg, Edição bilingue, 1997, jrBustamante

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fragmentos do horizonte (cicerone de mim mesmo)

Cicerone de mim mesmo

mountains and rivers went on for ever
and did not notice the passing of time.

Roald Dahl, Katina

Estas são as terras altas da Mantiqueira
que se foram para sempre com os rios
sem notar a passagem do tempo, sim,
estas terras altas da Mantiqueira, corpo
de pedra e alma de orvalho face rochosa
eterna morada de deuses visíveis apenas
em mágicas noites de não sei quando, ai,
tempo das chuvas miúdas tempo das chuvas
gordas tempo das gotas selvagens que um dia
nefasto de janeiro fevereiro ou março (lembrar
quem há de) arrasaram com a imagem que hoje
só na memória subsiste fragmentada paisagem
eterna que dorme dentro de mim (indestrutível)
são noites demais são deuses de menos noites
eternas de um tempo que já passou e ao passar
só deixou a saudade, ah essa palavra!

Choram dia e noite lágrimas de neblina
a pena dos mortos a seus pés, gigante
e irisada cimeira da serra que encheu
de verde meu olhar miúdo de criança

cavando neste coração pouco dado
a malabarismos a ruidosa nascente
de raios e trovões e as tão conspícuas
procissões de densas nuvens errantes
onde os mudos adeuses se cobriram
de antigas camadas de silêncio
silêncio a silêncio e silêncio contra silêncio
(quando do outro lado do mundo ao atroar
de canhões e metralhadoras se cobriam
de negro os verdes bosques e os verdes
campos assolados pelas hordas nazis)

Adeus minha terra… Adeus meus avós…
Adeus pai… Adeus mãe… Adeus irmãos
em vossa distante morada ou presentes
noutras terras tão longe das queridas
terras altas e do verde vale de antigas
peripécias fantasias sonhos desfeitos…

A dor desse adeus tem hora que é
um punhal incandescente queimando
a pele do coração e da alma o peito
assombrado de quem diz adeus…

outras vozes me chamam é o destino
clamando meu nome em altos brados

{noutro hemisfério, ai,
coberto de mil mortes
igualzinho ao nosso
quase infinito selvagem
nada inocente nada puro}

Tantos adeuses sem resposta a não ser
o eco distante frágil vazio inaudível
dos altos penhascos e das rochas negras
embranquecidas aqui e ali como as cãs
que hoje povoam meu crânio {dignamente?}

de antigo menino andarilho
que sigo andando sem parar
até a hora derradeira, ai!

Os altos penhascos invoco
as perenes rochas negras
de duros olhos vigilantes

desde o fragmentado horizonte
sobre seus domínios naturais!

© Primeira estrofe do livro “fragmentos do horizonte”
(publicado em agosto de 2025)

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NOVOS LIVROS PUBLICADOS, JÁ DISPONÍVEIS!

Ederá, jovem de beleza deslumbrante e encanto irresis-
tível, sempre soube que o amor poderia ser uma escada para uma vida de luxo e prestígio. Assim, ao escolher marido, ignora os sussurros do coração e se entrega ao brilho sedutor do status social. Seu noivo, porém, oculta sob o verniz da elegância uma alma cruel e sem escrú-
pulos, revelando-se, com o tempo, ser um pesadelo do qual ela, à primeira vista, não sabe como escapar.

Isaías, um intelectual talentoso — músico e escritor de alma sensível — vive à margem do mundo artístico por sua natureza de lobo solitário. Ao ver Ederá por primeira vez, apaixona-se de forma obsessiva. Ao perceber que vai perder a mulher de sua vida por um homem indigno e perigoso, e sem forças nem meios para impedir o casa-
mento, parte pra Europa, onde em vão tenta reconstruir a própria identidade e reencetar uma carreira entre sombras e solidão.

O que Isaías não imagina é que o destino, tão cruel com ambos, ainda preserva reviravoltas capazes de reacender velhas chamas de esperança — ou de condená-los definitivamente a viverem separados.

Ederá é uma história de amor e desilusão, ambição e redenção, onde as escolhas feitas sob o véu da ingenuidade podem custar mais do que a felicidade: podem custar a própria alma.

Após um tumultuoso reencontro em Frankfurt, onde vive Isaías, convalescente de um câncer, Ederá insiste com ele para voltar com ela ao Brasil, a perseguir seus sonhos de escritor e de uma vida juntos.

Chegará ele a tempo de pegar o avião que a leva de volta à casa e unir assim dois destinos que nunca deviam ter se separado?

https://www.amazon.com/dp/B0FLW8VYPX


essas poucas ou muitas palavras
deixadas aí neste pseudopoema
de memórias da minha infância
nas terras altas da Mantiqueira

essas poucas ou muitas imagens
aí postas em forma de pseudoversos
de um suposto poema dos tempos
aqueles de um menino antigo feliz

querem transmitir talvez a quem possa
interessar minudências de um tempo
passado mais ou menos autêntico real
mais ou menos mítico ou inventado

porém antes de tudo querem revelar
algo que só uma criança como a que
habita a alma desse menino antigo
pode sentir ao recordar os dias passados

de sua própria infância acaso perdida
nos desvãos de uma memória dormida
que esses versos e essas imagens talvez
possam despertar, com isso vejo cumprida

minha despretensiosa missão de poeta
versejador de infâncias desaparecidas
tragadas pelas velhas fauces do tempo
(esse bicho voraz cruel e talvez real)

https://www.amazon.com/dp/B0FMFV6RKH

BREVE NOTA: Por quê dois livros tão diferentes lançados quase na mesma data?

Primeiro: EDERÁ surgiu de um conto engavetado há tempos em que ela não aparecia.
Isaías, o protagonista masculino.
Tentando desenvolver com maior amplitude a estrutura do conto, me dei conta de que a história dava para um romance com dois personagens contrapostos: Ederá e Isaías.
E assim nasceu este romance agora publicado após uns meses de trabalho.

Segundo: o livro de “poemas” — fragmentos do horizonte — vem sendo trabalhado desde mais ou menos 2011. Não tem nada a ver com o livro anterior, obviamente.

Trata-se de uma espécie de memorial poético da infância, a minha infância nas terras altas da Mantiqueira, com reminiscências mais ou menos borrosas, mais ou menos claras, dos primeiros anos daquele menino antigo que hoje já não é mais tão menino como nos velhos dias a que se refere o presente texto…

Conservo lembranças muito claras dos meus primeiros passos nesse mundo do verde vale aos pés desse horizonte encaixado nos altos cumes da Serra da Mantiqueira, no Bairro do Caxambu de Baixo, Passa Quatro (Minas Gerais), terra histórica de muitas bandeiras, muitas lutas, entre outras as que tiveram influência até na história nacional dos anos 30, pra não falar nos primór-
dios da Independência, quando a nossa cidade nem era município.

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