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Mulheres da (minha) vida

mulheres das ruas e avenidas
lojas e mercados bancos lanchonetes
da paulicéia e de outras brenhas
mulheres da terrinha e da estranja

cabelinho curto longas melenas
formas polifônicas caprichos noturnos

mulheres da bretanha e das margens
do Reno do Neckar do Atlântico

mulheres da cantareira da mantiqueira
taunus palatinado floresta negra
umas da alsácia e da lorena

(meu vô dizia carece provar de tudo
nesta vida menino vai e come
o que não se pode é passar fome)

mulheres de flandres da galiza
mulheres do mundo e submundos
de um e de outro hemisfério

em cujo mistério desliza e cai
em profundo sopor de espanto
e alumbramento o olhar perdido
de um curioso andarilho

tanto que ver e admirar sonhar
querer provar gozar que a vida
não dá, nasce o enigma e cresce
em círculos de luz e chamas

sem lei aparente sem mitologia
vertigens dum ser franzino doente
mais teimoso que o vento e a pedra
(doença do coração tem cura?)

entre todas a pungência mais doída
uma alzira que depois de ser mãe
agora é anjo vivo, ri à-toa inocente
por entre a névoa dos sonhos
que há noventa anos a enchem
de graça e alimento e valentia

quando ri diz-que clareia o dia
a noite tropical, não sei, não vi
não tornei a ver por quê
por quê por quê?

dói demais essa luz no olhar
antigo, se rindo alto na memória
que dá nos olhos da gente

é aquele golpe de aço por saber
(quem olha assim), olhar não cura
o mal da solidão, cura nada

o jeito é transmudar a dor em gozo
passageiro um dia sim outro também
dois corpos que se juntam como ondas
violentas de mar atlântico insolente
batendo naquelas rochas negras
ali onde agora me deu por existir
(subsistindo)

dar passagem ao enigma : a junção
de dois corpos que podem até
juntarem-se apertando-se
entre beijos candentes
inocentes dois corpos,
duas almas, duvido e faço pouco!

já dizia o bandeira o aleixandre
e outros dizedores de coisas
do gênero poético igualzinho
às coisas singelas do dia-a-dia

que o melhor é não dizer
e sim deixar acontecer –

(de “Esse mundo é meu”, 2010)