O dragão e o santo
Et proiectus est draco ille magnus… (Apoc. 12, 9)
Vou dar uma volta por aí e semioculta
atrás duma enorme trepadeira silvestre
que ninguém sabe quem plantou
topo à esquerda com a estátua:
São Jorge e o dragão subjugado
presos num bloco de granito.
Fico olhando pro santo e torcendo
pro dragão, São Jorge Cavaleiro
morde o beiço enfurecido e arma
o braço, lança em punho. O cavalo
parece dos três o mais assustado,
os olhos de gude querem
saltar das órbitas pra não ver
o duvidoso desfecho do golpe.
A lança do santo já bem salpicada
de bosta de pardal e de algum pombo
enferruja no ar poluído da cidade.
O dragão bem fresco língua de fora
parece estar rindo, sabendo que é
estátua, e mesmo sob os pés do santo,
penosa imagem de sujeição e derrota
bicho dragão de sete vidas famoso
pela velha rivalidade apocalíptica,
sabe que no fundo nem São Jorge
pode com ele.
Pode que o crime não compense
mas no fim o bicho sai ganhando!