O dragão e o santo

Et proiectus est draco ille magnus… (Apoc. 12, 9)

Vou dar uma volta por aí e semioculta
atrás duma enorme trepadeira silvestre
que ninguém sabe quem plantou
topo à esquerda com a estátua:

São Jorge e o dragão subjugado
presos num bloco de granito.

Fico olhando pro santo e torcendo
pro dragão, São Jorge Cavaleiro
morde o beiço enfurecido e arma
o braço, lança em punho. O cavalo
parece dos três o mais assustado,
os olhos de gude querem
saltar das órbitas pra não ver
o duvidoso desfecho do golpe.

A lança do santo já bem salpicada
de bosta de pardal e de algum pombo
enferruja no ar poluído da cidade.

O dragão bem fresco língua de fora
parece estar rindo, sabendo que é
estátua, e mesmo sob os pés do santo,
penosa imagem de sujeição e derrota
bicho dragão de sete vidas famoso
pela velha rivalidade apocalíptica,
sabe que no fundo nem São Jorge
pode com ele.

Pode que o crime não compense
mas no fim o bicho sai ganhando!

© do livro “Poemas de cristal”, Heidelberg, Edição bilingue, 1997, jrBustamante

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Revidando as sétimas (não dominantes)

  

Minha vida foi assim
e nunca mais há de ser
a mesma vida vivida
nos altos da Mantiqueira

Será outra a que há de ser
a vida que agora vivo
ao lado dessa mulher
com que
m sonhei toda a vida

Hoje é sonho realizado
que ainda sigo sonhando
há quase quarenta anos
sonho de olhos abertos

Sim é o destino perfeito
que de coração aceito
como se aceita um presente
saído do coração

Minha mulher e meu filho
os dois presentes mais caros
que me alegrais n
esta vida
agora sim mais completa

Agradecer ao destino
tão camarada comigo
é somente o que me resta
para cumprir… nesta viagem

no digo adiós digo hola
bienvenida primavera
con sus aromas y flores
y sus promesas de vida

© Copyright by text & music jrBustamante, 2025

Sétimas… não dominantes!

Minha vida foi assim:

No princípio a natureza
seus mistérios seus milagres
nos altos da Mantiqueira
verde vale campos verdes
bambuzais e verdes matas
galinhas vacas cavalos
meu Rucinho em disparada
pai e mãe irmãos avós
vovô Derfo vovô Chico
a passarada dos campos
ricas frutas tropicais
infância de alumbramentos
lembranças vivas de um tempo
do tempo antigo passado
há tanto tempo já morto
do queijo fresco de Minas
que elaborava meu pai
de mui saudosa memória

Para contar nossa história
vou ter de escrever um livro
com base em fatos reais

Pai e mãe onde é que estais
como dói esta saudade
essa saudade de todos
que já se foram de casa
para nunca mais voltar

Do meu coração não sai
a vontade de rever-lhes
os olhos acostumados
que tanta falta me fazem

Vou parando por aquí
só de lembrar-me de vós
me dá um nó na garganta
não posso mais, digo adeus
até poder ver de novo
seus semblantes mais que vivos
ocultos naquela nuvem
ali detrás do horizonte
que vai dar no infinito

Ando aqui meio perdido
num mundo que não é meu
já nem sei qual a razão
que me trouxe a estas praias
viver desse jeito ao léu

deve ser destinação

adeus meu pai minha mãe
adeus todos os meus mortos
adeus… para sempre adeus

© Copyright text & music jrBustamante, 2025

No Dia Mundial da Poesia – Primavera no hemisfério norte