fragmentos do horizonte (cicerone de mim mesmo)

Cicerone de mim mesmo

mountains and rivers went on for ever
and did not notice the passing of time.

Roald Dahl, Katina

Estas são as terras altas da Mantiqueira
que se foram para sempre com os rios
sem notar a passagem do tempo, sim,
estas terras altas da Mantiqueira, corpo
de pedra e alma de orvalho face rochosa
eterna morada de deuses visíveis apenas
em mágicas noites de não sei quando, ai,
tempo das chuvas miúdas tempo das chuvas
gordas tempo das gotas selvagens que um dia
nefasto de janeiro fevereiro ou março (lembrar
quem há de) arrasaram com a imagem que hoje
só na memória subsiste fragmentada paisagem
eterna que dorme dentro de mim (indestrutível)
são noites demais são deuses de menos noites
eternas de um tempo que já passou e ao passar
só deixou a saudade, ah essa palavra!

Choram dia e noite lágrimas de neblina
a pena dos mortos a seus pés, gigante
e irisada cimeira da serra que encheu
de verde meu olhar miúdo de criança

cavando neste coração pouco dado
a malabarismos a ruidosa nascente
de raios e trovões e as tão conspícuas
procissões de densas nuvens errantes
onde os mudos adeuses se cobriram
de antigas camadas de silêncio
silêncio a silêncio e silêncio contra silêncio
(quando do outro lado do mundo ao atroar
de canhões e metralhadoras se cobriam
de negro os verdes bosques e os verdes
campos assolados pelas hordas nazis)

Adeus minha terra… Adeus meus avós…
Adeus pai… Adeus mãe… Adeus irmãos
em vossa distante morada ou presentes
noutras terras tão longe das queridas
terras altas e do verde vale de antigas
peripécias fantasias sonhos desfeitos…

A dor desse adeus tem hora que é
um punhal incandescente queimando
a pele do coração e da alma o peito
assombrado de quem diz adeus…

outras vozes me chamam é o destino
clamando meu nome em altos brados

{noutro hemisfério, ai,
coberto de mil mortes
igualzinho ao nosso
quase infinito selvagem
nada inocente nada puro}

Tantos adeuses sem resposta a não ser
o eco distante frágil vazio inaudível
dos altos penhascos e das rochas negras
embranquecidas aqui e ali como as cãs
que hoje povoam meu crânio {dignamente?}

de antigo menino andarilho
que sigo andando sem parar
até a hora derradeira, ai!

Os altos penhascos invoco
as perenes rochas negras
de duros olhos vigilantes

desde o fragmentado horizonte
sobre seus domínios naturais!

© Primeira estrofe do livro “fragmentos do horizonte”
(publicado em agosto de 2025)

Quatro poetas, para mim são deuses!

Dois brasileiros, dois latinoamericanos: deuses da poesia!

Jorge de Lima (1893-1953): https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_de_Lima

Tu és, ó Mira-Celi, a repercutida e o laitmotivo
que aparece ao longo de meu poema.
Nele estás construída à semelhança de um imenso órgão
movimentado pelo meu espírito.
Cresces nele paralelamente a teu desenvolvimento físico,
mas incognitamente, como uma órfã dentro da multidão.
Às vezes, quando dobras uma página, perguntas: – “Sou eu?”
Mas, olhando depois a paisagem mudar tanto, no espaço de um segundo, encontras os teus membros na nudez de uma frase.
Nunca te libertarás deste parque em que nos encerramos,
fingindo dois desaparecidos, e em que nos nutrimos um do outro contra as leis naturais.
Outras vezes te encolhes em mim, ó minha pequena maré;
e basta que eu abra as pálpebras e a minha memória te encontre,
para te recompores imediatamente
em minha maior dimensão.


Murilo Mendes (1901-1975): https://pt.wikipedia.org/wiki/Murilo_Mendes

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.

É necessário conhecer seu próprio abismo.

E polir sempre o candelabro que o esclarece.


César Vallejo (1892-1938): https://es.wikipedia.org/wiki/Cesar_Vallejo

Hay golpes en la vida, tan fuertes… ¡Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma. ¡Yo no sé!

Son pocos; pero son. Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Estos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre. Pobre. ¡Pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.
Hay golpes en la vida, tan fuertes. ¡Yo no sé!


Nicanor Parra (1914-2028): https://es.wikipedia.org/wiki/Nicanor_Parra

LA
POESÍA
MORIRÁ
SI NO
SE LA
OFENDE

hay
que poseerla
y humillarla en público

después se verá

lo que se hace

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Carlinho, 79?

Olá irmão ausente e sempre aí

se rindo na recordação de um tempo
desvanecido nas sombras do passado

parabéns! parabéns!

por mais um ano de ausente vida
doída na memória

doída pela história
que um dia compartimos
nos campos do caxambu
nas ruas de taubaté

nas daninhezas de crianças
nas bebedeiras de outrora

parabéns irmão querido
tanto tempo já perdido
nos campos além da aurora

outro dia quem sabe vamos dar
aquele abraço e recordar (ai!)
o tempo antigo quando juntos
sem saber éramos felizes

sem saber que um dia, a deus
maninho do coração, a deus!

© text & music jrBustamante, 4.11.2022

(Esse mundo é meu!)

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